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O impacto de Dias de Nietzsche em Turim.

Atualizado: 14 de ago. de 2023



Por Danilo Dias de Freitas


O dizer sim à vida inclusive em seus problemas mais estranhos e mais rudes… isso foi o que entendi como ponte que leva à psicologia do poeta trágico. Não para libertar-se do terror e da compaixão, não para purificar-se de um afeto perigoso por meio de uma veemente descarga - neste ponto Aristóteles está errado - mas para, além do terror e da compaixão, sermos nós mesmos a eterna alegria do devir, essa alegria que encerra em si o prazer da destruição1.

Friedrich Nietzsche.


André Bazin dizia que “a função do crítico não é trazer numa bandeja de prata a verdade que não existe, mas prolongar o máximo possível, na inteligência e na sensibilidade dos que lêem, o impacto da obra de arte”2.

De que impacto Bazin estaria falando? Do impacto subjetivo produzido pelos filmes no crítico-espectador? Não seria este um critério demasiadamente arbitrário? Não restaria nesse “critério crítico” um tanto de desejo onipotente?

O que de fértil se pode extrair da sentença baziniana, me parece, é o destronamento do crítico. Em resumo, não é o crítico quem fala pelo filme; é o filme quem deve falar através do crítico.

Mas como deixar o filme falar se este é já uma tradução, ou melhor, uma “transcriação intersemiótica”, como Julio Bressane gosta de definir seus trabalhos sobre a vida e a obra de personagens históricos como Antônio Vieira, São Jerônimo, Machado de Assis, etc?

Como, enfim, aceitando de bom grado a premissa baziniana, prolongar em texto o impacto cinematográfico de Dias de Nietzsche em Turim (2001)?

Poderíamos perseguir as pistas deixadas por Julio Bressane e Rosa Dias em entrevistas e depoimentos sobre o filme. Mas mesmo essas pistas não convergiriam para uma verdade a ser exposta em bandeja de prata. Senão, vejamos…

Em entrevista de 2002, Julio Bressane diz que “queria fazer um pequeno filme sobre um grande tema, mas a questão era ver como fazer desse material cinema, identificar o que, no texto, podia ser transcriado em imagens, traduzido de uma linguagem para outra, inter-semioticamente". E continua: “Busquei os textos que sugerissem um movimento, uma imagem, um conceito... Isso sim foi difícil. Escolhi três ideias de Nietzsche: o jogo das perspectivas, o esmaecimento do sujeito, e o sentimento do apolíneo e do dionisíaco. Trabalhei com esses três núcleos, por exemplo, traduzindo em imagens o conceito de relatividade das verdades, que traduzi com as diferentes texturas da película. Usei sete ou oito texturas diferentes – 35mm, 16mm ampliado, cinescopagem – para traduzir esse conceito”3.

Em 50 minutos e 23 segundos com Julio Bressane, um dos episódios da série4 em dez capítulos realizada por Geraldo Sarno, Julio diz, dentre outras coisas, que neste filme foi impulsionado pelo “jogo de contrastes, pela aproximação de abismos, pela saturação da palavra e do verbal” que se manifesta em Nietzsche a partir de seu colapso nervoso ao final de sua temporada em Turim. Bressane revela algo ainda mais curioso: que buscava uma perspectiva extra-europeia, uma visão mestiça do signo Nietzsche.

Rosa Dias, pesquisadora e roteirista do filme, em conferência5 de 2021, diz que o filme nasceu de forma absolutamente despretensiosa. Ao acompanhar Julio Bressane, em 1995, ao Festival de Turim para exibição de dois seus filmes da década de 1960, Matou a Família e Foi ao Cinema e O Anjo Nasceu, resolveu documentar em vídeo os locais que Nietzsche frequentara na cidade italiana. O objetivo inicial era mostrar esses locais a seus alunos universitários. Desse objetivo despretensioso nasceu uma sequência de visitas bianuais à Turim e se desenrolou todo o processo de realização do filme.

Mas se traçamos este percurso de entrevistas e depoimentos é para fazer ver que um filme nunca é somente a pretensão ou a despretensão de seus realizadores. Um filme é sempre um transbordamento. E no caso de Dias de Nietzsche em Turim, um transbordamento especial; um transbordamento dos limites entre vida e obra de arte.

Talvez aqui Julio tenha conseguido identificar o que no texto [e na vida de Nietzsche] podia ser transcriado em imagens, traduzido de uma linguagem para outra, inter-semioticamente: a não separação entre o inteligível e o sensível; a grande razão nietzschiana, o corpo.

Em Ecce Homo, escrito enquanto esteve em Turim, Nietzsche chega a dizer que “o ritmo do metabolismo está em estrita relação com a agilidade ou o peso dos pés do espírito; o próprio espírito nada mais é que uma forma desse metabolismo”6.

Esse é o espírito que percorre o filme de Bressane; um espírito sinestésico, de metabolismo leve, que se equilibra delicadamente sobre pés apolíneo-dionisíacos.

Fernando Eiras, nosso signo mestiço e extra-europeu de Nietzsche, pensa com os pés, a pele, os olhos, o nariz e os ouvidos. Nietzsche já não é alemão, nem santo, demônio, filósofo, poeta ou músico. É antes um pré-socrático, um esteta da existência no qual a unidade entre o pensamento e a vida permanecem intactos, e isso Bressane soube captar muito bem.

Tomar sorvete, escolher frutas em uma quitanda, filosofar, tocar piano, fazer sexo, escrever cartas, delirar os nomes da história ou contemplar uma ópera, tudo tem o mesmo peso - ou melhor seria dizer a mesma leveza?

Para Bressane e Rosa Dias não importa tanto, me parece, se o apolíneo e o dionisíaco são essências ontológicas que irrompem da própria natureza e, o artista, imitador por excelência, lhe dá formas adequadas”7. Tampouco parece importar se há ou não o “em si” ontológico; e que tudo seja vontade de potência ou o eterno retorno da diferença8.

Importa mais o cinema e a arte como formas de transbordamento da vida, como exercícios de experimentação e resistência à toda forma de negação da vida. Talvez seja esse o signo mestiço e extra-europeu de Nietzsche. Talvez seja esse o impacto de Dias de Nietzsche em Turim.

12/08/2023


1 NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo: como se chega a ser o que se é. São Paulo. Escala. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal. Vol. 57. p. 68.


2 BAZIN. André. O que é cinema? São Paulo. Cosac Naify. 2014. p.7.


3 Entrevista concedida em 2002 ao site www.críticos.com.br. Para ler a entrevista na íntegra:https://criticos.com.br/?p=146&cat=2


4 A linguagem do cinema - coletânea de vídeos que documentam os processos de criação de 10 cineastas brasileiros - é uma realização da Riofilme e do cineasta Geraldo Sarno.


5 Evento on-line realizado em 15/10/2021, no aniversário de 177 anos do nascimento de Friedrich Nietzsche. Organizado pelo grupo de pesquisa Kinosophia – Filosofia e Cinema (PPGFIL – FAFIL – UFG). Convidados: Rosa Dias e Henry Burnett. Mediação: Eduardo Carli e Carla Damião. Para ver na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=QZc0TjrKj8U&t=476s


6 NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo: como se chega a ser o que se é. São Paulo. Escala. Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal. Vol. 57. p. 39.


7 Ver: NIETZSCHE, Friedrich. O nascimento da tragédia ou Helenismo e Pessimismo. São Paulo. Companhia das Letras. 1992.


8 Ver: NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo. Companhia das Letras. 2011.

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