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Vitalina Varela, uma viagem sem volta!

Atualizado: há 7 dias




Por Danilo Dias de Freitas




Não se engane com tão grande ilusão. Se houver amor, as coisas têm que correr bem.


Vitalina Varela

Ao descer as escadas de um avião recém-chegado a Portugal, Vitalina Varela é recebida por um grupo de trabalhadoras cabo-verdianas. A palavra de ordem de uma de suas compatriotas é peremptória: “aqui em Portugal não há nada para você. A casa dele [Joaquim] não é sua. Volte para sua terra”. Vitalina não responde, ao menos por enquanto. A resposta virá mais à frente, de modo não menos decisivo: “Eu passei 40 anos esperando um bilhete de avião para vir a Portugal. Vou ficar pelo resto da minha vida”.


No plano das escadas do avião, Vitalina aparece descalça e com água escorrendo pelos pés. Seriam lágrimas de luto? Ou seria incontinência urinária, como sugerido em Cavalo Dinheiro (2014)? Não importa tanto, pois a reverberação entre os filmes de Pedro Costa está submetida à lógica da contaminação. O contágio se dá pela enunciação coletiva da história, não tanto pela veracidade fenomênica dos acontecimentos individuais.


Em Cavalo Dinheiro, Vitalina recebe uma carta de Joaquim pelas mãos de Ventura. Não ficamos sabendo o conteúdo da carta, pois Vitalina a lê em silêncio. Nada mais natural, considerada a marcha sequencial do tempo, que o espectador espere o conteúdo da carta em Vitalina Varela. Mas a carta não aparece. Quem sabe em algum filme no futuro, assim como a carta sem remetente e destinatário que aparece pela primeira vez em Casa de Lava (1994) e só irá reaparecer doze anos depois, em Juventude em Marcha (2006).


Não é sem razão que seja Ventura o responsável por dar voz à carta que transmigra de Casa de Lava à Juventude em Marcha. “O texto da carta foi escrito por Pedro Costa misturando duas fontes: uma carta de trabalhador imigrado e uma carta de um “verdadeiro” escritor, Robert Desnos, redigida sessenta anos antes em outro campo, o campo de Flöh, na Saxônia, etapa do caminho que o levava a Terezin e à morte. Assim, o destino ficcional de Leão e o destino real de Ventura estão englobados no circuito que liga o exílio habitual dos trabalhadores aos campos de concentração. Mas também a arte do pobre – a arte dos escritores públicos – e a dos grandes poetas veem-se urdidas num mesmo tecido: arte da vida e do compartilhar, arte da viagem e da comunicação para o uso daqueles cuja vida é viajar, vender sua força de trabalho e construir casas e museus dos outros, bem como transportar sua experiência, sua música, sua maneira de morar e de amar, de ler o que está nas paredes ou de escutar o canto dos pássaros e dos homens”1.


Ventura é Ventura, um indivíduo singular, mas é sobretudo um agente de enunciação coletiva; o esquizo portador dos delírios e fissuras históricas de seu povo. Ventura é Ventura, mas é também Bassoé, Joaquim, Lento, os prisioneiros de Tarrafal e todos imigrantes cabo-verdianos.


Assim como em Cavalo Dinheiro (2014), filme que Vitalina aparece pela primeira vez, Ventura continua a viver seus delírios e fissuras como os delírios e as fissuras históricas de seu povo. Se agora como Padre, outra vez, não importa tanto. Pois Ventura não é só Ventura. Ventura é a memória viva de seu povo, o responsável por deixar às gerações futuras o registro histórico da libertação nacional de Cabo-Verde, o portador corpóreo das múltiplas histórias individuais que se conjugam no tempo e na diáspora de sua gente.


Só Ventura pode dar à Vitalina, num diálogo sui generis, a resposta com suficiente carga de enunciação coletiva: “Estou melhor, um bocado. Nós compartilhamos nosso luto. Você perdeu seu marido. Eu perdi a fé nessa escuridão”.


Mas será só Ventura quem perdeu a fé?


Vitalina esconjura o marido e a casa caindo aos pedaços, incomparável à casa que construíram juntos em Cabo-Verde. Recorda que Joaquim fora um homem bom, trabalhador e corajoso. Em Portugal, ao contrário, apenas um homem triste, bêbado e preguiçoso como todos os outros. Mas, menos que um bêbado preguiçoso, talvez Joaquim fosse apenas mais um trabalhador cabo-verdiano iludido com as promessas de uma vida melhor. Um trabalhador sobrevivendo às mazelas de uma vida imigrante, como enunciado nas perambulações de Ventura.


É que a grandeza espiritual de Vitalina, captada pelos longos planos de Pedro Costa, confere outro sentido às nossa percepções. Talvez só alguém com a firmeza de espírito e estatura humana de Vitalina possa confrontar Ventura como sujeito de enunciação coletiva: “homem a favor de homem! ”. Vitalina já não é apenas Vitalina, mas todas mulheres anônimas e abandonadas em Cabo-Verde por seus maridos.


Sobre a cena em que o teto do banheiro desaba, Pedro Costa diz ter demorado muitos dias para se decidir sobre uma luz que fosse digna de Vitalina. E, o principal, afirma ter dito mesmo sem saber muito bem o motivo: “não chore. É muito importante que você não chore, Vitalina”.


A luz que revela o rosto de Vitalina, quase sempre a emoldurá-lo como o próprio retrato da resistência, nos oferece um olhar paradoxal. Um misto de presença e ausência. Uma grandeza de espírito, ainda que fraturado pela tragédia do destino. Mas a fratura já é parte do todo; e nenhum destino dura para sempre. A casa em Portugal jamais se aproximará de sua casa em Cabo-Verde, mas os amigos de Joaquim farão o reparo do telhado (em uma das poucas cenas filmadas à luz do dia). Os cabo-verdianos imigrados compartilham a morte, mas a vida também.


Neste último filme, Pedro Costa continua a fazer um cinema em que já não há separação absoluta entre vida e arte, entre ator e personagem, entre roteiro e realização, entre pensamento e prática, entre remetente e destinatário, entre filme e espectador. A câmera e o microfone de Pedro Costa estão mais para instrumentos humanos de descoberta e partilha da vida que para ferramentas técnicas de representação do mundo.


Como diz Jacques Rancière em Política de Pedro Costa, “uma arte em que a forma se liga à construção de uma relação social e aciona uma capacidade que pertence a todos. (...) Trata-se de marcar a proximidade da arte com todas as formas em que se afirma uma capacidade de compartilhar ou uma capacidade compartilhável”2.

De qualquer modo, Vitalina não consegue chegar a tempo do enterro de seu marido. Mas poderá enterrar Marina com alguma dignidade. É bem possível que não haja nada em Portugal para Vitalina. E que nem mesmo consiga algum dia fazer ser sua a casa de Joaquim. Mas talvez já não seja impossível reencontrar aquela sua compatriota do aeroporto e lhe dizer: “Se houver amor, as coisas têm que correr bem”.


1RANCIÈRE, Jacques. As distâncias do cinema. Rio de Janeiro. Contraponto. 2012. p .157.

2RANCIÈRE, Jacques. As distâncias do cinema. Rio de Janeiro. Contraponto. 2012. p. 158.