- Apolo, essa cicatriz na sua testa aparece estranha nessa imagem.
- Como assim, Dionisio?! Ainda não havia sido marcado.

CORTE!

 
 
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Tempo, Memória e Cinema: uma curadoria de Verve Cineclube.

Atualizado: Mar 3



Tempo, Memória e Cinema.


Quando digo “Alice cresce”, quero dizer que ela se torna maior do que era. Mas por isso mesmo ela se torna menor do que é agora. Sem dúvida, não é ao mesmo tempo que ela é maior e menor. Mas é ao mesmo tempo que ela se torna um e outro. (...) O bom senso é a afirmação de que, em todas as coisas, há um sentido determinável; mas o paradoxo é a afirmação dos dois sentidos ao mesmo tempo.[1]


Gilles Deleuze



- Apolo, esta cicatriz na sua testa aparece estranha nessa imagem. - Como assim, Dionisio?! Ainda não havia sido marcado.


Corte!


Cronos, o tempo, é inexorável. Uma ausência presente. Uma superfície de passagem. Concentra-se nos corpos, expande-se em relações simbólicas e confere sentido, de modo simultâneo, ao passado, presente e futuro. Opera e é operado pela História. Agente e paciente. Conteúdo e continente de memórias e devir.

A memória conserva-se em si mesma, a História em seus desdobramentos. A memória é, no entanto, codificada, condicionada por funções e posições que se alinham em qualquer período de tempo. Estática, portanto, naquilo que a linguística transfere a outras etapas e ordens dos saberes. Movimentos inconscientes que produzem redes de trocas simbólicas. Sistemas que subsistem nos eventos históricos.

À questão recorrente e falsamente imperativa de “o que é o cinema?” sobrepõe-se a investigação: o que pode o cinema? Pode, tal qual outra arte, reelaborar o tempo, a vida e a história. Pode extrair da literatura, do teatro, das artes performáticas e plásticas não a mímese, a imitação de modelos, a reprodução de sentidos. Pode assumir delas, antes, sua potência criadora; as propriedades particulares que abriram novas linhas de pensamento. Ao cinema, diante do tempo, resta um encontro particular com o real, sempre aberto, em que a imagem não seja um arquétipo imóvel.

Porque a imagem cinematográfica é um corte no tempo, na história, na memória. Mas não um corte qualquer. A imagem cinematográfica é um corte, mas ele próprio um corte móvel.

Cronos, o tempo, convoca Apolo e Dionísio para resolver a contenda: “A cicatriz é minha, não de vocês.”


Autores: Danilo Dias de Freitas e Tanael Cesar Cotrim


  1. [1] DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Editora Perspectiva. São Paulo. 2015. p. 1.


PROGRAMAÇÃO:



PAI - UM DIÁRIO DE FÉ. (1966) - Março (07/03/2020), 19h30.

Direção: István Szabó.

Duração: 101 minutos

Sinopse: Takó é um garoto que vive na Budapeste destruída pela Segunda Guerra Mundial. Seu pai morreu ao fim da guerra. Takó cresce envolto de frágeis memórias e das tentativas de construir a imagem de seu pai e de seu país.



O ESPELHO (1975) - Abril (04/04/2020), 19h30.

Direção: Andrei Tarkovsky Duração: 101 minutos

Sinopse: O Espelho apresenta a estilhaçada vida do homem contemporâneo, com suas buscas pelo sentido da existência no tempo. É o mais autobiográfico trabalho de Andrei Tarkovski, em que reelabora, em partes, suas memórias permeadas de angústias, traumas e moralidades no garoto Alexéi. O filme é entrelaçado de tempos, encaixados num eixo que leva da experiência infantil na Segunda Guerra Mundial ao presente em decrepitude. O pai do cineasta, o poeta Arseni Tarkovski, lê os próprios poemas em várias partes. Sua mãe também aparece como ela mesma nas lembranças, sonhos e pesadelos de Alexéi.



BAIXIO DAS BESTAS (2006) - Maio (02/05/2020), 19h30.


Direção: Cláudio Assis

Duração: 80 minutos

Sinopse: A monocultura da cana de açúcar subsiste na zona da mata pernambucana. As bestas que habitam o baixio, de Heitor a Everardo, são o reflexo acabado do arcaísmo monocultural que insiste no tempo. O Brasil colônia é aqui e agora, ainda. Mesmo aqueles que ainda possuem alguma dignidade - como Mestre Mário e Maninho - não são capazes de se levantar contra a máquina social de moer gente, sobretudo os inocentes.



PROVIDENCE (1977) - Junho (06/06/2020), 19h30.

Direção: Alain Resnais Duração: 102 minutos Sinopse: Memória, fantasia e crise de criação assolam Clive Langham, um escritor que não sabe se conseguirá terminar seu livro-testamento. A obra imita a vida mental e obsessiva do autor, permeada de rancores, traições e manipulações. Enfim, reencontra a família numa sessão de revelações e desvendamentos.



SÁTÁTANGÓ (1994) - Julho (04/07/2020), 19h30.

Direção: Béla Tarr Duração: 449 minutos Sinopse: O filme é baseado no romance homônimo de László Krasznahorkai e sua duração é o tempo de leitura do livro, segundo o diretor. As tessituras do tempo, presente, passado e futuro, invadem uma remota vila rural húngara no período de passagem do socialismo real para o capitalismo. A mudança de sistema provoca uma transformação radical nos meios de existência da coletividade, gerando seres alheios ao próprio passado recente.



GLÓRIA (1980) - Agosto (01/08/2020), 19h30.


Direção: John Cassavetes

Duração: 123 minutos

Sinopse: Glória, apegada à banalidade de sua vida, conhece o pequeno Phil. Este encontro, a princípio confuso, desenrola-se de forma absolutamente ímpar. Não é que Glória não queira voltar à banalidade de sua vida anterior, mas a plenitude de um instante vale por toda a eternidade.



A GRANDE TESTEMUNHA (Ao Azar Balthazar) (1966) - Setembro (05/09/2020), 19h30.

Direção: Robert Bresson Duração: 95 minutos Sinopse: O ciclo de vida do burro Balthazar, assim batizado em aspersão, é modelo típico da estética cinematográfica bressoniana. O animal ocupa posições e funções determinadas pelas circunstâncias históricas, pelo uso de que se serve os humanos. No entanto, os dilemas do tempo inscrevem-se no corpo de Bathazar, esculpindo uma memória.



CORAGEM DE TODO DIA (1964) - Outubro (03/10/2020), 19h30.


Direção: Evald Schorm

Duração: 87 minutos

Sinopse: Jaroslav Lukas vive uma crise existencial. Atormentado pelas mudanças sociais de seu tempo e pelo alcoolismo, Lukas entra em um labirinto de decadência espiritual e psíquica. O percurso individual de Lukas é também o percurso histórico de seu país, ainda que seus destinos possam bifurcar-se na encruzilhada do tempo.



CARTA PARA JANE (1972) - Novembro (07/11/2020), 19h30.


Direção: Jean Luc Godard Duração: 52 minutos Sinopse: Realizado para acompanhar as projeções de Tout va bien (1972) em festivais em 1972, esta última colaboração entre Godard e Jean-Pierre Gorin parte de uma fotografia de Jane Fonda publicada em um semanário francês para trabalhar uma modalidade de ensaísmo que seria reinventada em várias ocasiões na carreira posterior de Godard.



BOM DIA (1954) - Dezembro (05/12/2020), 19h30.


Direção: Yasujiro Ozu.

Duração: 94 minutos.

Sinopse: Bom dia é uma sátira da vida suburbana japonesa da década de 1960. O conflito entre gerações não é um conflito de tempos em abstrato. A televisão, objeto de impasse familiar, é a cristalização de um novo tempo. Ozu, com sua imobilidade criadora, disseca uma sociedade que tem muito a dizer sobre o banal, mas nada a dizer sobre o que mais importa. Afinal, que tempos são esses?




LOCAL DE EXIBIÇÃO:

MIS-CAMPINAS

Rua Regente Feijó, 859 - Centro - Palácio dos Azulejos, Campinas.


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