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Tempo, Memória e Cinema: uma curadoria de Verve Cineclube.

Atualizado: 10 de mai.


Tempo, Memória e Cinema.


Quando digo “Alice cresce”, quero dizer que ela se torna maior do que era. Mas por isso mesmo ela se torna menor do que é agora. Sem dúvida, não é ao mesmo tempo que ela é maior e menor. Mas é ao mesmo tempo que ela se torna um e outro. (...) O bom senso é a afirmação de que, em todas as coisas, há um sentido determinável; mas o paradoxo é a afirmação dos dois sentidos ao mesmo tempo.[1]


Gilles Deleuze



- Apolo, esta cicatriz na sua testa aparece estranha nessa imagem. - Como assim, Dionisio?! Ainda não havia sido marcado.


Corte!


Cronos, o tempo, é inexorável. Uma ausência presente. Uma superfície de passagem. Concentra-se nos corpos, expande-se em relações simbólicas e confere sentido, de modo simultâneo, ao passado, presente e futuro. Opera e é operado pela História. Agente e paciente. Conteúdo e continente de memórias e devir.

A memória conserva-se em si mesma, a História em seus desdobramentos. A memória é, no entanto, codificada, condicionada por funções e posições que se alinham em qualquer período de tempo. Estática, portanto, naquilo que a linguística transfere a outras etapas e ordens dos saberes. Movimentos inconscientes que produzem redes de trocas simbólicas. Sistemas que subsistem nos eventos históricos.

À questão recorrente e falsamente imperativa de “o que é o cinema?” sobrepõe-se a investigação: o que pode o cinema? Pode, tal qual outra arte, reelaborar o tempo, a vida e a história. Pode extrair da literatura, do teatro, das artes performáticas e plásticas não a mímese, a imitação de modelos, a reprodução de sentidos. Pode assumir delas, antes, sua potência criadora; as propriedades particulares que abriram novas linhas de pensamento. Ao cinema, diante do tempo, resta um encontro particular com o real, sempre aberto, em que a imagem não seja um arquétipo imóvel.

Porque a imagem cinematográfica é um corte no tempo, na história, na memória. Mas não um corte qualquer. A imagem cinematográfica é um corte, mas ele próprio um corte móvel.

Cronos, o tempo, convoca Apolo e Dionísio para resolver a contenda: “A cicatriz é minha, não de vocês.”


Autores: Danilo Dias de Freitas e Tanael Cesar Cotrim


  1. [1] DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. Editora Perspectiva. São Paulo. 2015. p. 1.


 

PROGRAMAÇÃO:



PAI - UM DIÁRIO DE FÉ. (1966) - Março (07/03/2020), 19h30.

Direção: István Szabó.

Duração: 101 minutos

Sinopse: Takó é um garoto que vive na Budapeste destruída pela Segunda Guerra Mundial. Seu pai morreu ao fim da guerra. Takó cresce envolto de frágeis memórias e das tentativas de construir a imagem de seu pai e de seu país.



O Espelho (1975) - Maio (14/05/2022), 19h30.

Direção: Andrei Tarkovsky Duração: 101 minutos

Sinopse: O Espelho apresenta a estilhaçada vida do homem contemporâneo, com suas buscas pelo sentido da existência no tempo. É o mais autobiográfico trabalho de Andrei Tarkovski, em que reelabora, em partes, suas memórias permeadas de angústias, traumas e moralidades no garoto Alexéi. O filme é entrelaçado de tempos, encaixados num eixo que leva da experiência infantil na Segunda Guerra Mundial ao presente em decrepitude. O pai do cineasta, o poeta Arseni Tarkovski, lê os próprios poemas em várias partes. Sua mãe também aparece como ela mesma nas lembranças, sonhos e pesadelos de Alexéi.



Vitalina Varela (2019) - Junho (11/06/2022), 19h30.

Direção: Pedro Costa Duração: 124 minutos Sinopse: Ficção? Documentário? Canção Popular? Oração? Canções revolucionárias? Tudo isso e nada disso. Pedro Costa continua a traçar linhas de um mapa de tempos e espaços perdidos, fraturados, quiçá revividos em becos, vielas, casebres e imagens de um claro-escuro entre Cabo-verde e Portugal. O cineasta português (ou melhor seria dizer mensageiro, missivista?) nos apresenta o luto de Vitalina Varela, mas já não se pode deixar de sentir o luto de todo um povo.




Trás-os-Montes (1976) - Julho (09/07/2022), 19h30.

Direção: Antonio Reis e Margarida Cordeiro Duração: 110 minutos Sinopse: Jean Rouch assistiu e deslumbrou-se. Decretou, então: “É o filme que melhor aborda uma cultura em função de seu tempo.” Um divisor de águas na Antropologia da Imagem. O filme que marcou a arte cinematográfica na cabeça do não menos fundamental Pedro Costa. Um exercício inovador de linguagem e de articulação entre espaço, tempo e homem. A docuficção, toda encenada pelos moradores dos lugarejos de Trás-os-Montes, apresenta os costumes milenares dos povos em relação às peculiares geográficas e ao tempo histórico.




GLÓRIA (1980) - Agosto (13/08/2022), 19h30.


Direção: John Cassavetes

Duração: 123 minutos

Sinopse: Glória, apegada à banalidade de sua vida, conhece o pequeno Phil. Este encontro, a princípio confuso, desenrola-se de forma absolutamente ímpar. Não é que Glória não queira voltar à banalidade de sua vida anterior, mas a plenitude de um instante pode modificar toda a eternidade.




Um instante de Inocência - Setembro (10/09/2022), 19h30.

Direção: Mohsen Makhmalbaf Duração: 78 minutos Sinipse: Um policial resolve cobrar o diretor Mohsem Makhmalbaf sobre uma promessa não cumprida: Torná-lo ator de um filme. O cineasta aproveita o instante e manobra com força metalinguística o tempo, o momento, o presente aparentemente inédito, mas que encobre um passado misterioso.




A Grande Testemunha (Ao Azar Balthazar) (1966) - Outubro (08/09/2022), 19h30.

Direção: Robert Bresson Duração: 95 minutos Sinopse: O ciclo de vida do burro Balthazar, assim batizado em aspersão, é modelo típico da estética cinematográfica bressoniana. O animal ocupa posições e funções determinadas pelas circunstâncias históricas, pelo uso de que se serve os humanos. No entanto, os dilemas do tempo inscrevem-se no corpo de Bathazar, esculpindo uma memória.




La Jetée (1962) – A Ponte (1928) - Novembro (12/11/2022), 19h30.

Direção: Chris Marker – Joris Ivens Duração: 28 minutos – 15 minutos Um exercício de cinema comparado entre duas formas completamente distintas de elaboração do tempo no cinema. La Jeteé corrompe a ideia vigente de caracterizar a autenticidade do cinema como “corte em movimento” da realidade. Já A Ponte desloca a importância do tempo cinematográfico elaborado pela montagem para o “corte em movimento” da câmera no espaço fílmico.




Bom dia (1954) - Dezembro (10/12/2022), 19h30.


Direção: Yasujiro Ozu.

Duração: 94 minutos.

Sinopse: Bom dia é uma sátira da vida suburbana japonesa da década de 1960. O conflito entre gerações não é um conflito de tempos em abstrato. A televisão, objeto de impasse familiar, é a cristalização de um novo tempo. Ozu, com sua imobilidade criadora, disseca uma sociedade que tem muito a dizer sobre o banal, mas nada a dizer sobre o que mais importa. Afinal, que tempos são esses?




LOCAL DE EXIBIÇÃO:

MIS-CAMPINAS

Rua Regente Feijó, 859 - Centro - Palácio dos Azulejos, Campinas.