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Os descaminhos de Glória.

Atualizado: 22 de nov.



Por Danilo Dias de Freitas


O cinema de Cassavetes, pressupondo-se a reunião de seus filmes sob o guarda chuva conceitual do “cinema de autor”, é habitualmente classificado como um “cinema do corpo”. Cinema em que os gestus das personagens tem primazia no encadeamento das imagens, em detrimento da autoridade narrativa do roteiro. Um cinema em que a montagem dos planos se dá mais por uma química conectiva dos corpos e rostos das personagens que por um associativismo espacial das imagens.

Porém, muito mais próximo do cinema de gênero que a grande maioria de seus filmes, Glória (1980) se liga ao cinema de Cassavetes sob um aspecto mais originário. Desde Sombras (1959), passando por Faces (1968) e Maridos (1970), com ponto alto em Uma mulher Sob Influência (1974), o cinema de Cassavetes é um cinema do acontecimento.

Em Cassavetes há sempre acontecimentos que separam o real; não em um antes e um depois, mas em “um agora” e “um para toda eternidade”. Glória nunca mais será a mesma depois de seu encontro com Phil. O grupo de amigos em Maridos nunca mais será o mesmo após a morte de um de seus integrantes. No cinema de Cassavetes, a vida é encontro de corpos e acontecimentos. Nada mais.

Daí a agilidade e o despojamento desse cinema, que nos dá uma percepção quase molecular das situações. É como se a super presença da câmera no meio das situações nos desse um continuum temporal deste grande esbarrar de corpos que é a vida. E mais: os acontecimentos não se dão como panaceia dramática, mas como resultado agonístico da convivência humana. Seja o acontecimento “racismo” em Sombras, o acontecimento “tédio” em Faces, o acontecimento “morte” em Maridos, o acontecimento “amor” em Assim Falou o Amor (1971), tudo converge para um mesmo sentido; embate agonístico entre corpos ao mesmo tempo unidos e separados por relações afetivas e sociais.

Em Uma Mulher Sob Influência, quando Mabel brinca com seus filhos e os filhos de seu vizinho, o espectador sabe que não há nada demais neste acontecimento. Mabel suprime o dever imposto pelo “princípio de realidade” em favor da fantasia. Mas quando o vizinho encontra a filha nua, uma enormidade de outros sentidos do mesmo acontecimento vem à tona. Será este inocente acontecimento, não por acaso, que levará Mabel à internação psiquiátrica. Aqui está o cinema de Cassavetes: nem o mais inocente dos acontecimentos está a salvo do desdobramento do real, pois há um paradoxo em sua dinâmica interna. No cinema de Cassavetes, o ser humano transita pelo eterno impasse das proximidades e distâncias, como se não pudesse existir subjetivamente sem experimentar a alteridade dos outros corpos. Os delírios de Mabel são antes uma saúde que uma doença, uma fuga para frente, mas há sempre os outros, a família, a sociedade, os acontecimentos. Há sempre um marido, um filho, uma sogra, um vizinho, um policial, um psiquiatra.

Em Minnie and Moskowitz (1971), Minnie é categórica: “Sempre que se aproxima de mim, levas uma surra; e sempre que eu me aproximo de ti corto-me ou levo um murro”. Ao que Moskowitz responde: “É o que acontece quando se ama alguém”. No cinema de Cassavetes, mesmo o amor é uma violência. Aliás, sobretudo o amor.

É neste quadro mais originário que se enquadra Glória. Um filme sobre os acontecimentos que cortam a vida sem pedir licença (é preciso lembrar que Glória aparece no apartamento dos vizinhos porque ficou sem café, fato suficiente para um acontecimento de grandes proporções). Um filme sobre os impasses do amor marcado pelo vai e vem da atração e repulsão dos corpos. Um filme sobre a improvável família de uma solteirona com um descendente de porto-riquenhos. Um filme sobre o tempo, a vida e a morte.

Com Glória, mais que os sabores da redenção, experimentamos o abismo que envolve a percepção do acontecimento como corte temporal nu. Aquele corte que, no limite, torna-se um diferencial, um vapor, um sonho. Glória não se cansa de repetir a Phil: “isso é como num sonho”.

Até momentos antes do encontro final, não sabemos o que aconteceu com Glória. Parece que já fomos com Phil ao mesmo cemitério, mas agora o experimentamos sob o signo da suspensão temporal. Ou será outro cemitério qualquer? Onde estará Glória? Morreu ou apenas abandonou Phil de vez? Eis que experimentamos o terror e a beleza do acontecimento: a vida e a morte são também uma questão de encontro e desencontro. E o cinema de Cassavetes sabe disso.