- Apolo, essa cicatriz na sua testa aparece estranha nessa imagem.
- Como assim, Dionisio?! Ainda não havia sido marcado.

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Memória Cinematográfica

Atualizado: Ago 27

Por Tanael Cesar Cotrim


Memória Cinematográfica

O Artista, A Arte e Sua Cosmogonia

Vsevolod Pudovkin e a montagem estruturalista. Dziga Vertov e a Câmara-Olho construtivista. Sergei Eisenstein e o Plano Dialético. Três mundos fílmicos contrapostos e predominantes nos anos 20 da União Soviética e no legado ao desenvolvimento e depuração da estética, da técnica e da produção cinematográfica. Três tendências, no entanto, que solaparam filmografias importantes do país na época, como as de Lev Kuleshov, Abram Room e Alexandre Volkoff. Nos anos seguintes, obras de impacto ainda eram atravessadas pela visão do trio. A força do Hamlet de Grigori Kozintsev, nos anos 60. A plasticidade surpreendente de Quando Voam as Cegonhas, de Mikhail Katatozov. O lirismo de A Balada do Soldado (1959), de Grigori Chuckrai. A grandiloquência do Guerra e Paz (1966), de Sergei Bondarchuk. O existencialismo pungente de 100 Dias Após a Infância (1976), de Sergei Solovyov. O horror nas lentes límpidas de Vá e Veja (1985), de Elem Klimov. As estruturas da vida no enigmático Os Dias de Eclipse (1989), de Aleksandr Sokurov.

Definitivamente, há uma União Soviética para o cinema. Da qual Andrei Tarkovsky é mais afluente que tributário. A cultura russa, no caso, diversa e particular ao mesmo tempo, é que lhe impõe paradigmas. O solo russo, da Mãe Rússia, mais que a máquina soviética.

Eisenstein nasceu na Letônia, mas é soviético de alma e estética. Alexsandr Sokurov é russo, mas de alma e estética europeia. Andrëi Tarkóvsky nasceu na União Soviética, mas russo de alma e estética. E o que Tarkovsky sempre quis de sua Rússia em suas lentes estava distante dos compatriotas. Foi-lhe mais importante Teshigahara do que Kurosawa, Bergman do que Lang, Bresson do que Griffith, Buñuel do que Rosselini. O que propunha ao cinema não era novo, mas arquetípico: “Não sei o que é cinema. Só entendo que, por meio do cinema, é necessário situar os problemas mais complexos do mundo moderno no nível dos grandes problemas que, ao longo dos séculos, foram objetos da literatura, da música e da pintura. É preciso buscar, buscar sempre de novo, o caminho, o veio ao longo do qual deve se mover a arte do cinema.”

Compreender a Rússia não é tarefa qualquer. Sabe Tarkovsky que também não é raro um desarrazoado esforço de compreensão. Não há facilitadores. A Rússia de Tarkovsky é singular, pois abordada por uma arte, o cinema, que pretende transmitir o tempo da história, assumir sua originalidade como meio expressivo, e não retratar a história. Sem abrir mão dos elementos estruturantes do tempo, aqueles que permanecem acomodando e adaptando as ocorrências da História. Não à toa o cineasta viaja à fragmentada Rússia do século 14 para pinçar não o passado arquiteto do presente, mas o passado em si no presente e o presente como é dado.

Andrëi Rublev é a iconografia do gigante continental, de cujas terras medram hordas de etnias em trânsito permanente. Não sucumbe à lógica imperialista do ocidente europeu próximo, nem se ajoelha à malta bárbara do oriente remoto. Também não estaca frente aos chineses do sul, nem aos mongóis de oeste. A Rússia é uma gigante ilha rodeada de guerras e invasores por todos os lados. Além dos fatores históricos, há uma geografia particularíssima, inóspita ao desenvolvimento de humanidades, de norte a sul, de leste a oeste. Povos em movimentos contínuos na terra não prometida.

No entanto, diante de adversidades imperativas, emerge uma cultura rica e original, exuberante em suas manifestações e singular em suas formas e arquétipos. Um legado à arte à ciência, ao conhecimento, que a humanidade vai conhecer e se influenciar no século 20.

Andrei Trakovsky, agora, então, diante de seu mundo, é tributário desse ambiente cultural. É um inovador em sua arte. É um esteta engajado com a arte. É um artista que olhou para trás, séculos anteriores, para dizer o presente e remontar o futuro. Em Andrei Rublev há épica, drama, tragédia, comédia. E a sensação de que nunca deveria acabar.

- Então sabe que não voltarei a pintar, Teófanes.

- Por que, Rublev?

- Não farei falta a ninguém.

- Só porque queimaram sua iconoclastia? Sabe quantas da minhas já foram queimadas? Em Pskov, Novgorod, Galitch... Está cometendo um grande pecado.

- Não disse o mais importante. Matei uma pessoa. Um Russo.

- Através dos nossos pecados, o mal ganhou aparência humana. Quem atende ao mal, atende à carne humana. Deus te perdoará. Mas você não deve perdoar-se. Viverá entre o perdão e o seu próximo tormento. “Aprendei a fazer o bem, respeitai o direito, protegei o oprimido, fazei justiça ao órfão. Venha, vamos debater juntos.” Diz o Senhor. Se nossos pecados forem escarlates, tornar-se-ão brancos com a neve... Não me esqueci... Ainda me lembro! Talvez isso te alivie.

- Sei que Deus é piedoso e me perdoará. Vou fazer voto de silêncio ao Senhor, e viverei mudo. Nada mais tenho que falar com as pessoas... A Rússia amada... Tudo suporta. E tudo suportará. Mas por quanto tempo isso continuará?

- Não sei, talvez para sempre. Contudo, como tudo isso é belo... Está nevando. Não há nada mais terrível que a neve numa catedral.

Andrei Rublev (1966)

Direção: Andrëi Tarkóvsky

Roteiro: Andrëi Tarkóvsky e Andrey Konchalovskiy

Fotografia: Vadim Yusov


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