- Apolo, essa cicatriz na sua testa aparece estranha nessa imagem.
- Como assim, Dionisio?! Ainda não havia sido marcado.

CORTE!

 
 
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CRÍTICA | Pai - Um diário de fé (István Szabó, 1966)

Atualizado: Jun 13




Por Danilo Dias de Freitas


Mnemosyne, a deusa da reminiscência, era para os gregos a musa da poesia épica. Mas que musa épica haveria de ter um povo exterminado em campos de concentração? Como transmitir a tradição de um povo se já não se pode narrar suas experiências coletivas? As imagens de um cine-jornal podem até dar o tom épico da resistência ao nazismo, mas na epopeia imaginária de Takó - ao contrário da grandiosidade dos heróis gregos - o pai é representado como um tipo burlesco: pula de um bonde para fugir dos nazistas, trava brigas macarrônicas, viaja de bicicleta pela Alemanha, esconde judeus que talvez não tenham existido e se se torna uma liderança da resistência é pela caneta vermelha de Takó.


Para Takó e sua geração a orfandade é irmã gêmea da imaginação. A reminiscência que podem invocar é antes imaginada que vivida. Neste caso, não se pode nunca confiar no narrador. Ele está em crise. Por isso, ora é onisciente e em terceira pessoa, ora é o próprio Takó em primeira pessoa. A certa altura o narrador onisciente desaparece e pronto. Estamos órfãos. O bonde da história húngara é uma colagem de conflitos ilustrados por cartazes e fotografias de gente morta e desaparecida.


A seriedade e o realismo com que Takó imagina as épicas aventuras de seu pai não condizem com a jocosa trilha sonora imprimida às imagens. Quando criança, Takó pode até usar o relógio de seu pai; mas não pode dar corda nele. Quando se torna adulto o suficiente para dar corda, o relógio se quebra. O tempo não passa, mas também não para. O relógio pode ser consertado? Outra vez, o impasse narrativo e histórico.


A fotografia que carrega parece ser de seu pai, mas também pode ser do affair de sua mãe. O relojoeiro, trabalhador artesanal e por isso mesmo representante metafórico da possibilidade de um narrador épico, é um tratante. Não conserta o relógio. Está ausente. Talvez para sempre.


Péter Szondi dizia – em sua Teoria do drama moderno – que as antinomias entre forma e conteúdo de uma obra de arte funcionam como sismógrafos históricos e sociais. A epopeia foi o gênero narrativo que historicamente representou as formações nacionais e suas transformações políticas. Mas como narrar uma epopeia húngara na altura do ano de 1966?


Eis o ponto!


Pai – Um diário de fé é um impasse histórico e, portanto, narrativo; talvez um impasse tão profundo quanto o vivido por Abraão.


O pai está morto. Deus também. Agora é Isaac, ou Takó, o convocado a carrasco e escrivão deste diário de fé.

©2020 por vervecineclube.com

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