- Apolo, essa cicatriz na sua testa aparece estranha nessa imagem.
- Como assim, Dionisio?! Ainda não havia sido marcado.

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Cinematografia Cruzada

Por Tanael Cesar Cotrim


What did Lynch do?


Ói Nóis Aqui! Ói Nóis Aqui! Hollywood Fica Ali Bem Perto Só Não Vê quem Tem um Olho Aberto

(Hollywood, Chico Buarque, 1981)


É bom que fique claro, nada de bruma, nada de cinza entre os brancos, nada de chumbo entre os negros. Nada de enigmaticamente azul. A alienação por David Lynch tem dia e hora marcados. É histórica. É sociológica. É sobre o moderno e hodierno homem industrial. O surrealismo é um encadeamento lógico do absurdo na mente, não na psiquê. O subjetivismo do estranhamento está ancorado no aspecto social do indivíduo. Ao bebê máquina cuspidor de excremento de Eraserhead (1977) não basta afago no regaço e tapinhas nas costas para aliviar o desconforto. O inconveniente está em entrechoque entre o dentro o fora, o conteúdo e o continente, o passado e o presente, corpo corporificado de tempos alienantes. O novo What did Jack do? (2020), de Lynch, brevemente, é um ensaio sobre seu processo criativo. O símio a que entrevista é ele mesmo, em instâncias outras de si e do tempo.

E por que não a arte para ensejar o devaneio de interrogar o passado fora de si, manuseá-lo, projetá-lo, recalcá-lo, isolá-lo do próprio corpo? A primeira estrofe da letra da canção Hollywood, do disco Os Saltimbancos, de Chico Buarque, fala de um sonho de sucesso, um paradigma de idolatria, que deforma a realidade imediata já transtornada. Talvez seja esse o intento da transformação do real pelo imaginário. O que Freud denominou de "pensamento mágico" na cabeça do universal homem neurótico. Trágico nos filmes Mulholland Drive (Cidade dos Sonhos, 2001), de David Lynch, e Sunset Boulevart (Crepúsculo dos Deuses, 1950), de Billy Wilder. 51 Anos de diferença não distanciam, aproximam o operador onírico surrealista de Lynch e o noir clássico de Wilder. A morte não é uma ilusão, é uma justificativa para o devaneio. Sem o qual não há vida digna de ser vivida. Está aí a contradição. A ambivalência esquizofrênica no tecido das relações. A projeção de uma mistura farmacológica próxima do veneno-remédio, instinto e ambição. Combinação elaborada por códigos sociais corrompidos, de onde emergem seres faunos projetados na mente do sujeito. O Oscar não vale o Oscar. E o sonho do Millôr Fernandes é real: "Gostaria de ganhar o Oscar só para poder não ir receber."

©2020 por vervecineclube.com

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