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Au Hasard Balthazar ou A Grande Testemunha ou A mecânica bressoniana da graça.

Atualizado: 23 de nov.


Por Danilo Dias de Freitas



Nenhum mecanismo intelectual ou cerebral. Simplesmente uma mecânica 1.


Robert Bresson - Notas sobre o cinematógrafo.


Eu queria que esse animal

fosse, mesmo na sua condição de animal, uma matéria bruta 2.


Entrevista de Robert Bresson a Jean-Luc Godard e Michel Delahaye.



Os títulos do sétimo longa-metragem de Robert Bresson, em francês, Au Hasard Balthazar (1966), e em português, A Grande Testemunha, se vistos sem nenhum tipo de referência prévia, remetem a uma curiosidade em comum: o espectador não suspeitará que Balthazar, a testemunha, é um animal. É desse despretensioso detalhe que surgirá o primeiro impasse. Que tipo de testemunha um asno pode vir a ser?

Não parece acaso - este acontecimento tão caro à metafísica bressoniana - que um burro carregue o nome de uma das supostas testemunhas humanas do nascimento de Cristo. Mas Balthazar, misto de rei, mago e santo possuía aquilo que o distinguia como testemunha: a positividade codificável da linguagem humana. Já Balthazar, o asno, o que o distingue? O ruído, a não codificação de sua linguagem. A positividade testemunhal de Balthazar, o asno, se dá pelo avesso. Sua potência testemunhal é da ordem do não humano; eis o procedimento bressoniano em síntese. É pela inscrição aleatória dos acontecimentos temporais em seu corpo e pela peculiaridade não humana de sua condição vivente que Balthazar se tornará uma testemunha tão singular.

E o que testemunha o tempo, ainda que pelo avesso do humano?

Se as coisas do mundo são transitórias como o tempo, ao passo que as coisas de Deus permanecem, preferirá o homem passar com o mundo ou viver para sempre com Deus, pergunta Santo Agostinho em seu tratado sobre o evangelho de São João.

A concepção agostiniana do tempo envolve uma física e uma metafísica específicas. A transitoriedade do mundo se correlaciona com o tempo em seu aspecto físico, espacial, material, em suma, com o caráter corruptível dos corpos submetidos à ação do tempo. A eternidade, ao contrário, se relaciona com o tempo em seu aspecto metafísico, com um “fora do espaço” habitado por Deus. O que temos aqui é uma concorrência de duas imagens do tempo; a imagem da materialidade corruptível dos corpos em contraposição ao espírito como imagem da eternidade de Deus.

Mas se a eternidade é a morada de Deus, como poderia o homem, mundano que é, ter alguma jurisdição sobre este domínio? A resposta de Agostinho: “ao livre-arbítrio foi dito: Filho, não rejeitais a correção do senhor (Pr 3,11), e o senhor disse: Eu, porém, orei por ti, a fim de que tua fé não se desfaleça (Lc 22,32). Portanto, o homem é ajudado pela graça a fim de que, não sem motivo, à sua vontade se imponham preceitos”3. E continua: “Assim, caríssimos, se a nossa vida nada mais é que a graça de Deus, a vida eterna, recompensa da vida reta, é, sem dúvida, a graça de Deus, a qual é outorgada gratuitamente, porque é dada gratuitamente a quem é outorgada. Somente esta a quem se dá, é chamada graça; a vida eterna, outorgada a quem viveu na graça, como é prêmio, é graça sobre graça, a modo de recompensa pela prática da justiça. Assim é para que seja verdade, por que é verdade, que Deus retribui a cada um conforme suas obras”4.

Em resumo, para Agostinho a conquista da eternidade é a superação da transitoriedade temporal do mundo através do livre-arbítrio humano auxiliado pela graça divina.

Mas que tipo de arbítrio possuiria um asno?

Estaria Balthazar, por sua peculiaridade animal, menos suscetível que os homens ao livre-arbítrio e, portanto, mais perto da graça divina e mais distante das concupiscências do mundo?

Logo na introdução de seu Discurso da Reforma do Homem Interior, o agostiniano Cornelius Jansenius, bispo de Ypres e precursor do jansenismo na França, retoma a passagem da Primeira Epístola de São João tão cara a Santo Agostinho: “não há nada no mundo senão concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida”5.

Será por isso que o inquisidor humanista, o agostiniano, o jansenista Bresson, nas palavras de Godard, nos faz ver as vicissitudes do mundo pelos olhos de Balthazar, como que depurando nosso olhar demasiadamente humano?

Mas, ora, o percurso de Balthazar é a própria expressão da transitoriedade do tempo e das coisas do mundo, objetaria um espectador atento.

Aqui está o cerne da problemática bressoniana: azar e sorte são só os dois lados mundanos da moeda do tempo. O acaso é quem destinará Balthazar à eternidade de sua glória. Balthazar, por sorte ou azar, experimentará os efeitos temporais do mundo, mas seu fim místico o aproximará da eternidade de Cristo, aquele que venceu em vida as concupiscências do mundo e a transitoriedade do tempo. Cristo, a testemunha, o mediador, é ao mesmo tempo humano e divino; pai, filho e espírito santo. O acaso aparece então como o duplo; a face contingente da predestinação na mecânica da graça bressoniana.



Mas essa mecânica não é cega. Um condenado à morte escapou (1956), segundo o próprio Bresson, teria um título distinto, a saber, “Ajuda-te a ti mesmo”, como no provérbio que se completa com “e Deus te ajudará”. O título não foi mantido, mas o espírito do provérbio sim: livre-arbítrio e graça como termos complementares desta mecânica.

É especialmente o jogo dessa complementaridade agostiniana que anima o cinematógrafo bressoniano. Na verdade, sua singularidade estética se deve antes de mais nada à certeza de que, embora complementares, é a graça o termo dominante desta díade. Pois “tudo é graça”, como dirá o padre de Ambicourt no leito de morte em Diário de um Pároco de Aldeia (1951).

No entanto, se tudo é graça, que margem eficaz haveria para o “ajuda-te a ti mesmo” bressoniano?

Segundo os critérios agostinianos-jansenistas é aqui que o homem aceita, ou pelo menos deveria aceitar, mais que os mistérios divinos, a insuficiência humana diante de Deus. O “ajuda-te a ti mesmo” refere-se ao reconhecimento da necessidade da graça para a realização das boas obras humanas. Seria o reconhecimento da finitude e das limitações humanas diante da eterna e infinita sabedoria de Deus. Bresson não se cansará de fazer esta denúncia dostoievskiana do homem moderno. Pois, se Deus está morto, tudo é permitido.

Também não se cansará de aprimorar uma estética pascaliana do mistério das coisas. Já em seu primeiro longa-metragem, Anjos do Pecado (1943), Pascal é citado: “Todas as coisas são misteriosas”. Ainda longe do que viria a ser o sistema do cinematógrafo, Bresson já demonstrava sua desconfiança em relação ao cinema, esta prática sempre tão disposta a tudo mostrar.

O cinematógrafo bressoniano, ao contrário, é a arte da alusão. Afinal, o mistério das coisas não pode ser mostrado, apenas aludido. Deus revela-se ocultando-se. É pela potência não humana da natureza que se pode ver o humano e vice-versa. É pela física que se atinge a metafísica e assim por diante.

Através de seu mediador, Bresson nos oferece um testemunho do homem moderno ou, melhor, um testemunho não humano da modernidade. Pessimismo ou lucidez? Difícil dizer, mas com Au Hasard Balthazar talvez passemos a ver, senão com olhos mais humanos, com olhos ainda por vir. Com A Grande Testemunha, o cinematógrafo bressoniano apura sua heterodoxa mecânica da graça e torna-se o olho paradoxal do tempo: sorte e azar no desfiladeiro do acaso.

Au Hasard Balthazar!


Notas:


1 BRESSON, Robert. Notas sobre o cinematógrafo. Porto Editora. Porto. 2000. p. 40.

2 In: Coleção CINUSP: Robert Bresson. Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP. São Paulo - Abril de 2011. p. 126.

3 AGOSTINHO, Santo. A Graça II. São Paulo. Paulus. 1999. p. 33.

4 AGOSTINHO, Santo. A Graça II. São Paulo. Paulus. 1999. p. 43-44.

5 JANSENIUS, Cornelius. Discurso da Reforma do Homem Interior. Tradução: Andrei Venturini Martins. São Paulo. Filocalia. 2016. p. 63.